Anais: Ensino de Geomorfologia, formação e profissionalização do Geomorfólogo

ELABORAÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO PARA O ENSINO DE GEOMORFOLOGIA NA EDUCAÇÃO BÁSICA

AUTORES
de Almeida Balbino, M. (UFTM) ; Batista, R. (UFTM)

RESUMO
Para o ensino de Geografia, a aplicação dos conteúdos geomorfológicos se torna essencial para o desenvolvimento perceptivo do aluno, onde a elaboração das relações do seu cotidiano e as demais localidades se estabelece. Deste modo, o seguinte texto irá destacar as primeiras experiências docentes obtidas numa escola pública de Uberaba-MG, na confecção de um material didático pedagógico, visando promover o entendimento das formas do relevo em alguns espaços vivenciados pelos alunos.

PALAVRAS CHAVES
Ensino de Geomorfologia; Material Didático; Educação Básica

ABSTRACT
For the teaching of geography, the application of geomorphological content becomes essential for the perception of the student, where the development of relations of everyday life and the other locations is established. Thus, the following will highlight the first teaching experiences obtained in a public school in Uberaba-MG, in making an educational teaching material in order to promote understanding of the forms of relief in some areas experienced by students.

KEYWORDS
Teaching Geomorphology; Teaching Material; Basic Education

INTRODUÇÃO
Os conhecimentos advindos da Geomorfologia favorecem a Ciência Geográfica por apresentar um entendimento de como surgem e evoluem as formas de relevo – e não apenas isso, mas permite conhecer as relações existentes entre o aspecto natural e humano, portanto a Geomorfologia aponta caminhos para que as ações humanas possam ser adequadas, minimizando os impactos no meio natural. Desta forma, evocamos que a Geografia presente nas escolas enquanto disciplina escolar – deverá trazer bases para que os alunos entendam os diversos aspectos que compõe o mundo, não apenas as características do Planeta Terra como um organismo dinâmico por si só, mas também sobre o papel da atuação humana, sendo assim, a Geomorfologia está intrínseca à consolidação do objeto de estudo da Geografia. Assim, os conteúdos que se referem à Geomorfologia são essenciais para a formação dos alunos, sobretudo na Educação Básica, onde esses devem ser preparados para uma ação futura que seja consciente e autônoma, onde os mesmos possam compreender e ter uma atitude cidadã mediante ao mundo. A Geomorfologia está presente na Educação Básica por meio de conteúdos abordados na disciplina de Geografia, no entanto, devido a fatores que não vamos elucidar aqui, destacamos que há uma dificuldade em apresentar esses conteúdos para os alunos, em fazê-los visualizar e mesmo contextualizar com a realidade local. Desta forma, o seguinte trabalho tem o intuito de apresentar as experiências adquiridas na construção de um material didático simples, porém de significativo suporte ao professor quanto ao ensino de Geomorfologia e sua interface com a Cartografia. Destacamos que tão importante quanto o aluno reconhecer as características quantitativas e qualitativas das formas de relevo dos diferentes lugares do mundo, é que o mesmo seja capaz de compreender a representação do relevo nos mapas; e assim permiti-los refletir sobre a organização dos espaços: local e global.

MATERIAL E MÉTODOS
Este trabalho consiste em apresentar uma experiência didática diferenciada com alunos do 9º ano de uma escola pública de Uberaba - MG, onde esses alunos puderam realizar um estudo de dois bairros da cidade no âmbito das características do relevo, sendo que, este estudo foi possível, a partir da interpretação da representação do relevo no mapa. Como resultado dessa experiência didática, obtivemos a confecção de um material didático, construído junto com os alunos, e com possibilidade de ser levado para outras salas de aula. O levantamento do mapa da área de estudo que compreende os bairros selecionados foi concedido pela Prefeitura Municipal de Uberaba em conjunto com o CODAU – (Centro Operacional de Desenvolvimento e Saneamento de Uberaba). Trata-se de um mapa topográfico, no qual o espaço urbano também está representado, sendo a escala desse mapa equivalente a 1: 25.000. Anterior a elaboração do material didático, apresentamos aos alunos a importância das escalas nos mapas, e as formas de representação do relevo nos mapas. Além disso, realizamos uma abordagem histórica do processo de urbanização da principal avenida da área central da cidade, onde foi apresentado um acervo fotográfico, com imagens da década de 1930 aos dias atuais; essa apresentação consistiu em informar os alunos a existência de um córrego que hoje encontra-se canalizado sob uma avenida, o Córrego das Lajes que está situado na avenida Leopoldino de Oliveira, não sendo possível sua visualização na superfície, no entanto no mapa levado para os alunos, consta a existência do córrego. Os materiais utilizados foram os mapas impressos dos bairros: Fabrício e Estados Unidos, canetas coloridas, papel vegetal, tesoura, cola, régua, lápis e placas de E.V.A nas cores: marrom, vermelho, laranja, amarelo, verde escuro e verde claro. Os alunos foram levados a passar o mapa impresso para o E.V.A, e cada cor do material representa um acréscimo de 10 metros de altitude do relevo.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A elaboração deste material didático foi significativa para a aprendizagem dos alunos, pois eles conseguiram analisar o relevo dos bairros próximos à escola, não apenas pelo aspecto qualitativo e quantitativo das formas de relevo, mas estabelecendo relações com o processo de urbanização – ou seja, de que forma o espaço está organizado diante das características naturais. Utilizando os mapas impressos, os alunos inicialmente observaram as curvas de nível, não tendo conhecimento de seu significado, para tanto colaborou a nossa orientação, para que fosse possível interpretar o relevo desses bairros. Os alunos visualizaram as curvas de nível no mapa, sendo que essas foram contornadas com caneta colorida, sobre um papel vegetal, esse processo consistiu ao que chamamos de elaboração de “moldes”; transpomos esses moldes para o E.V.A, as curvas que representavam a parte do relevo mais baixa foram representadas pelas diferentes tonalidades de verde, e a cada elevação do relevo, mudava-se a cor, utilizando o amarelo, laranja, vermelho e marrom. Portanto, a abordagem dos conteúdos de Geomorfologia remete ao cotidiano dos alunos, visto que o relevo pode caracterizar-se como fator limitante para o desenvolvimento de determinadas atividades humanas – associadas, inclusive, aos aspectos econômicos, sendo assim, destacamos a explanação de Florenzano (2008, p. 11): “Dependendo de suas características, o relevo favorece ou dificulta a ocupação dos ambientes terrestres pelo homem.” Contudo, os alunos tiveram a possibilidade de contextualizar, e mesmo construir os conceitos trabalhados em Geomorfologia de forma bastante ampla, devido às relações estabelecidas entre o homem e esse componente natural denominado relevo, para tanto compartilhamos com Marques (2007, p. 24) quando o mesmo afirma que: "O relevo sempre foi notado pelo homem no conjunto de componentes da natureza por sua beleza, imponência ou forma. Também, é antiga a convivência do homem com o relevo, no sentido de lhe conferir grande importância em muitas situações do seu dia-a-dia, como para assentar moradia, estabelecer melhores caminhos de locomoção, localizar seus cultivos, criar seus rebanhos ou definir os limites dos seus domínios." As práticas de ensino de Geografia deverão considerar o caráter social do espaço, pois de acordo com Cavalcanti (2010, p. 11): "[...] o pensar geográfico contribuiu para contextualização do próprio aluno como cidadão do mundo, ao contextualizar espacialmente os fenômenos, ao conhecer o mundo em que vive, desde a escala local à regional, nacional e mundial. O conhecimento geográfico é, pois, indispensável à formação de indivíduos participantes da vida social à medida que propicia o entendimento do espaço geográfico e do papel desse espaço nas práticas sociais." O ensino de Geografia deve levar em conta as representações sociais que os alunos possuem do espaço, mas há também que se destacar que o homem estabelece um vínculo social com essa característica marcante da paisagem: o relevo. Pois, como afirma Ross (2007, p.10): “O relevo é parte importante do palco, onde o homem, como ser social, pratica o teatro da vida.” Considerando suas definições sobre a importância da Geomorfologia, destacamos: " O entendimento da dinâmica do relevo interessa diretamente ao homem como ser social, passa a ser também parte integrante da geografia. Negar que o entendimento do relevo não é fundamental para os problemas da expansão dos sítios urbanos, instalação de núcleos de colonização, implantação de pólos industriais entre outros, é negar a própria geografia." (ROSS, 2007, p.18). Sendo assim, ao trabalhar os conteúdos de Geomorfologia na Educação Básica devemos permitir que os alunos construam seus conhecimentos a partir da realidade local, para tanto, cabe ao docente elaborar caminhos metodológicos que possibilitem a isso.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A elaboração deste material didático diferenciado consistiu em tornar a disciplina escolar Geografia mais próxima da realidade dos alunos. Portanto, permitir que os alunos possam ter bases reflexivas para entender o seu cotidiano, a organização do espaço que é intermediada pelos aspectos naturais, mais que se apresenta também de acordo com as ações humanas. Os alunos puderam ter uma visão diferenciada do espaço, porque antes o que viam era apenas uma avenida que estava numa área mais baixa do bairro, não imaginando a existência de um córrego, pois as ações humanas transformaram o espaço natural. É fundamental que o docente possa criar práticas de ensino diferenciadas, tornando os conteúdos abordados em sala de aula mais significativos; os materiais didáticos adotados pelas escolas, não devem ser o único recurso de aprendizagem, pois não fará uma abordagem específica do campo de visualização dos alunos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA
CAVALCANTI, Lana de Souza. [b]Geografia, escola e construção de conhecimentos.[/b] 15. ed. Campinas: Papirus, 2010. FLORENZANO, Teresa G. (Org.). [b]Geomorfologia: conceitos e tecnologias atuais.[/b] São Paulo: Oficina de textos, 2008. MARQUES, S. J. Ciência Geomorfológica: Interesse e importância do Estudo do Relevo: Gênese e Evolução das Formas. In: GUERRA, Antonio José Teixeira ; CUNHA, Sandra Baptista da (Org.). [b]Geomorfologia: uma atualização de bases e conceitos.[/b] 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. Cap. 1, p. 23-45. ROSS, Jurandyr Luciano Sanches. [b]Geomorfologia: ambiente e planejamento.[/b] 8. ed. São Paulo: Contexto, 2010.