Morfogênese da planície aluvial na região da confluência entre os rios Ivaí e Paraná e evidência de sua paleoconfluência

Autores

Morais, E.S. (GEMA-UEM) ; Santos, M.L. (GEMA-UEM) ; Stevaux, J.C. (GEMA-UEM) ; Creamon, (GEMA-UEM)

Resumo

O estudo apresenta a morfogênese e os estágios de evolução geomorfológica na planície e confluência dos rios Ivaí e Paraná. Informações de sensoriamento remoto, análise de fácies sedimentares e geocronologia foram utilizadas para compartimentação, e elucidam a evolução geomorfológica da planície e confluência. As analises demonstram compartimentos onde o abandono da drenagem do rio Paraná possibilitou a migração da confluência e o leito encaixado e de maior profundidade do rio Ivaí.

Palavras chaves

planície aluvial; confluência; rio ivaí

Introdução

A planície de inundação é formada por processos fluviais tais como migração e abandono do canal fluvial (Nanson & Croke, 1992). O registro desses processos, representado por paleocanais, são importantes indicadores da morfogênese da planície. Assim, análises da distribuição e direção dessas formas constituem relevantes informações sobre os processos fluviais (Mantelli et al. 2008; Hayakawa et al. 2010; Morais, et al. 2012; Zani et al.2012). Além disso, o estudo de depósitos dessas unidades contribui para a cronologia da paisagem fluvial (Stevaux & Souza, 2004; Rossetti & Goes, 2008; Assine & Silva, 2009; Salvador & Berger, 2014). A formação de planícies em regiões de confluência tem especial complexidade, devido à morfogênese com atuação de rios de diferentes características de regime climático, arcabouço geológico e tectônico. Apesar de diversos estudos abordarem os processos hidrodinâmicos que ocorrem em confluências (Best, 1986; Rocha & Souza Filho, 2005; Bejestan & Hemmati, 2008; Stevaux et al. 2009), a morfogênese de planícies nessas áreas ainda é pouco compreendida (p.e. Vandenberghe & Smedt, 1979; Gregório & Mendes, 2009; Schielein et al. 2011). O encontro dos rios Ivaí e Paraná, na região noroeste do estado do Paraná, preserva paleocanais que indicam as mudanças destes rios e a evolução da planície. De acordo com o estudo da geomorfologia do curso inferior do rio Ivaí de Santos et al. (2008) essa região de confluência é descrita como unidade morfoestratigráfica Planície Paraná-Ivaí e caracterizada pela morfogênese de ambos os sistemas fluviais. Entretanto, estudo da hidrodinâmica dessa confluência realizado por Barros (2006) ressalta o contraste na morfologia desses leitos. E em similar abordagem Franco (2008) corrobora com a proposição de hipótese para esta a formação desta foz. Desse modo, este estudo apresenta análise sobre a formação e os estágios de evolução geomorfológica da planície e confluência.

Material e métodos

O estudo foi realizado com uso de informações de sensoriamento remoto, análise de fácies sedimentares e geocronologia. A interpretação dessas informações foi utilizada para a compartimentação e proposição de modelo de evolução geomorfológica da Planície Paraná-Ivaí. A análise da direção de paleocanais possibilitou o reconhecimento da drenagem e evidenciou o local da paleoconfluência entre os rios Ivaí e Paraná. O delineamento dessas feições foi extraído com uso de imagens Landsat 5 e 7, corroborado pela aplicação de índices para o realce da umidade (Morais et al. 2012). Demais produtos de sensoriamento remoto como fotografias aéreas e dados de elevação SRTM subsidiaram a delimitação de terraços e do leque aluvial. A análise sedimentológica foi realizada com uso de sondagens em paleocanais com propósito de identificação e interpretação de fácies sedimentares (Santos, 1997; Stevaux & Santos, 2004). Depósitos do leque aluvial e terraços foram coletados e analisados em afloramentos. O material foi datado por datação por Luminescencia Opticamente Estimulada (LOE) e, posteriormente, encaminhado ao laboratório Datação Comércio e Prestação de Serviços LTDA.

Resultado e discussão

As análises da distribuição e direção de paleocanais da Planície Paraná-Ivaí revelaram três distintos compartimentos que evidenciam a morfogênese da planície. No Compartimento I (Figura 1) concentra-se a maior área da planície, onde estão presentes associações de paleocanais do rio Paraná com forma aproximadamente retilínea e orientação N-S. A morfologia desses paleocanais é constituída por um sistema multicanal com presença de paleobarras. Paleoformas semelhantes foram preliminarmente descritas por Souza Filho (1993) na unidade Terraço Baixo localizado na porção sul mato-grossense da planície aluvial do rio Paraná. Neste compartimento sobreposta aos depósitos da planície também está preservado a unidade geomorfológica do Leque Aluvial do Córrego do Dourado, com idade atestada por LOE de 1.600 anos A.P., representando os depósitos mais recentes deste compartimento.Já no Compartimento II foram registrados paleocanais com características únicas na Planície Paraná-Ivaí, pois possuem forma semelhante à de paleomeandros. Esses paleocanais apresentam características morfológicas associadas a formação de barras laterais com à interrupção gradual do fluxo do canal , cuja morfogênese é exclusiva aos processos do rio Paraná. Nas áreas adjacentes e em contato com esse compartimento estão os depósitos de terraço, cuja amostra coletada de sedimentos foi datada por LOE e apresentaram idade de 23.400 A.P.. No compartimento III estão preservados os depósitos mais recentes e que refletem a dinâmica do rio Ivaí. Os paleocanais ocorrem dispostos paralelamente ao canal atual e são mais recentes do que aqueles do Compartimento I e II, atestado pelos truncamentos dos depósitos do Compartimento I. A morfogênese deste compartimento deve-se a atividade do rio Ivaí sobre os depósitos mais antigos na planície do rio Paraná. Outras análises, por sua vez, revelam que as sequencias faciológicas dos Compartimentos I e III são claramente marcadas pela maior concentração de matéria orgânica no Compartimento III comparado ao Compartimento I, além da baixa frequência de fácies arenosas nas sondagens do Compartimento III e a passagem abrupta da fácies Gm para Fmo. Desse modo, o delineamento de compartimentos fundamentou a proposição dos estágios de evolução geomorfológica da Planície Paraná-Ivaí, divididos em: Estágio I, Intermediário e Estágio II. No Estágio I, o rio Paraná possuía uma rede de canais que drenavam a maior parte da planície atual, com presença de ilhas e barras fluviais entre os canais. Esse modelo de drenagem é expresso no Compartimento I onde é possível atestar os paleocanais com direção N-S associados com áreas sobressalentes atribuídas a pelaobarras. A interpretação de paleocanais presentes no Compartimento III indicou que o encontro dos rios Paraná e Ivaí ocorria 6 km a montante da atual confluência e com diferente geometria. A mudança da confluência proporcionou a formação da planície do rio Ivaí nessa região erodindo depósitos da drenagem abandonada do rio Paraná. O estágio seguinte, Intermediário, é caracterizado pelo início da formação da planície de inundação, com a migração para NW dos paleocanais, demostrados no Compartimento II. O estágio II representa a morfologia atual em que há preservado compartimentos com depósitos e morfologias distintas, herdadas dos processos que formaram a Planície Paraná-Ivaí. Além das mudanças no padrão de canal do rio Paraná com aprofundamento do leito, formação de ilhas e migração da drenagem para a margem direita. Tais mudanças favoreceram o processo erosivo no leito do rio Ivaí e, fixou a morfologia do canal e confluência sobre os antigos depósitos do rio Paraná, corroborado pela ocorrência das fácies Gm na base das sondagens.

Figura 1

Direção da paleodrenagem que evidencia compartimentos com diferentes processos morfogenéticos de construção da planície.

Figura 2

Evolução geomorfológica da planície e confluência. Notar o abandono da drenagem do rio Paraná com a formação da planície e migração da confluência.

Conclusões

Além de influência neotectônica na formação dos leques aluviais da calha do rio Paraná (Souza Filho, 1993; Souza Júnior et al. 2014), a datação nos depósitos do leque aluvial do córrego Dourado confirma as hipóteses de formação durante o Holoceno Recente (Stevaux, 1993; Santos, 1997; . Os estudos de Fortes et al. (2005) e Guerreiro et al. 2012 também colaboram com a idade dos terraços do rio Paraná. A análise da direção de paleocanais com estudos sedimentológicos prestou-se como importante informação de estágios morfogenéticos da planície. Processos como a interrupção gradativa do fluxo no Compartimento II, decorrida de combinações como o deslocamento do talvegue e mudança do padrão de canal do rio Paraná, são fatores que possibilitaram a formação da planície e a migração da confluência. Ao passo que a mudança da confluência para a jusante, com consequente ajuste do nível de base, é um dos fatores que contribuem para que o rio Ivaí na região de sua foz mantenha o canal encaixado.

Agradecimentos

Ao CNPq pelo apoio financeiro necessário para o desenvolvimento dessa pesquisa.

Referências

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