• 14° SINAGEO – Simpósio Nacional de Geomorfologia
  • Corumbá / MS
  • 24 a 30 de Agosto de 2023

GEOMORFOLOGIA URBANA E PROBLEMAS AMBIENTAIS NA PLANÍCIE FLUVIAL DO RIO POTI NA CIDADE DE CRATEÚS, CEARÁ

Autores

  • FRANCISCO LEANDRO DA COSTA SOARESUVA-SOBRAL(CE)Email: francisco.leandro.costa.soares@gmail.com
  • VANDA CLAUDINO-SALESUVA-SOBRAL(CE)Email: vcs@ufc.br

Resumo

O presente artigo trata da Geomorfologia Urbana do Rio Poti em Crateús, Estado do Ceará. O objetivo é realizar a análise dos aspectos que compõem este recorte de estudo. A metodologia é baseada na analise geossistêmica, e as técnicas envolvem pesquisa bibliográfica e cartográfica e análise-descrição em campo. Os principais resultados encontrados foram que o Rio Poti e a Cidade se desenvolveram sobre um estrato geológico-geomorfológico bastante peculiar, o que contribuiu para definir as atuais feições paisagísticas naturais e humanas presentes na planície fluvial. A análise demonstrou que o curso do rio está consideravelmente com impermeabilização do solo, com poluição da água, leito assoreado, presença de aglomerados subanormais que indicam Uso e Ocupação (in)devidos. Pretende-se, com essa pesquisa geográfico-geomorfológica, impulsionar a recuperação e conservação desse recurso hídrico no contexto da cidade.

Palavras chaves

Impactos ambientais; Rios; Uso; Ocupação; Cidades

Introdução

As pesquisas direcionadas para Geomorfologia Urbana dão suporte para intervenções de planejamento territorial nas áreas próximas a corpos hídricos. O presente artigo tem como foco a análise do Rio Poti na sede do município de Crateús, situado no oeste do Estado do Ceará. O trabalho segue uma perspectiva socioambiental e geomorfológica, intimamente atrelada uso e ocupação da planície de inundação do rio, bem como à caracterização dos aspectos naturais (geológico- geomorfológicos) e urbanos presentes no recorte espacial definido. Crateús fica a 350 km da capital estadual do Ceará, a cidade de Fortaleza. Sua localização está entre as coordenadas 5° 00′ o 5° 30′ de latitude sul e 40° 30′ a 41º 00′ de longitude W. Essa cidade é o polo da Região Geográfica Imediata de Cratéus (RGIt) e da Região Intermediária de Crateús (RGId) consoante com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística na porção oeste do estado do Ceará e próximas ao estado do Piauí (COSTA, 2017; IBGE, 2017). O acesso à região é predominante rodoviário e aeroviário. As rodovias principais são pela BR-020 e a BR-226. O sistema aeroviário, dá-se pelo Aeroporto Regional de Crateús – SNWS (Dr. Lucio Lima), que se situa a 4,0 km da área urbana municipal (COSTA, 2017; CEARÁ, 2023). O intuito do artigo, nestes termos, é realizar a análise da Geomorfologia Urbana do Rio Poti no município de Crateús-CE. Entende-se que se faz necessário para a sociedade a compreensão dos aspectos ambientais, postos em uma perspectiva geográfica e geomorfológica, para que possa ocorrer a execução de um planejamento urbano-ambiental adequado.

Material e métodos

A metodologia é baseada em analise geosistêmica (Bertrand, 1972, 2009), com técnicas pautadas em pesquisa bibliográfica, cartográfica, análise- caracterização em campo. Quatro etapas técnicas foram realizadas para a produção da pesquisa, a saber. A primeira, corresponde ao levantamento bibliográfico, cuja finalidade foi a constituição de um embasamento teórico sobre o tema a ser estudado. A pesquisa se deu sobretudo no Google Acadêmico (Scholar) e em periódicos de Geografia sobre a temática “Geomorfologia Urbana”, e de maneira específica “Geomorfologia Urbana: análise e caracterização”. A segunda fase consistiu na análise cartográfica e fotográfica (sensoriamento remoto/Google Earth) da área de estudo entre os bairros constituídos próximos ao leito do Rio Poti. Realizou-se também procura de fotos e mapas em arquivos da prefeitura e em projetos de engenharia. A soma da primeira e da segunda etapa resultou na caracterização geográfica- geomorfológica da bacia urbana do Rio Poti. Grande parte da caracterização deu- se a partir de mapeamento realizado pela Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) do Serviço Geológico do Brasil (SGB). Esse registro está na “Folha SB.24-V-C-III” (Escala 1:100.000) de 2017 e no livro sobre a “Geodiversidade do Estado do Ceará (2014)”. A terceira fase diz respeito aos trabalhos de campo. Foram realizadas três visitas consecutivas: a primeira, para o Bairro dos Patriarcas, a segunda para a Cidade Nova (Ilha) e por fim, o bairro Ponte Preta-São José-Centro. A quarta fase é aquela, na qual, foi realizada uma análise-caracterização dos dados adquiridos ao longo da pesquisa e assim a produção do material científico ora aqui apresentado.

Resultado e discussão

Os constituintes Geoambientais Do ponto de vista geológico-geomorfológico, coloca-se que a cidade de Crateús é caracterizada pela presença do Glint da Ibiapaba, situado a oeste da sede municipal. Conhecido popularmente por Serra da Ibiapaba, acha-se estabelecido nas rochas de constituição sedimentar pertencentes à Bacia do Parnaíba, de idade paleozoica. No sopé ocorre a chamada Depressão Periférica, sustentadas por rochas do embasamento cristalino pré-cambriano, onde dominam rochas metamórficas (BRANDÃO, 2014; CLAUDINO-SALES, 2016; 2020; 2020; SANTOS; NASCIMENTO; CLAUDINO-SALES, 2020; CLAUDINO-SALES; LIMA; DINIZ, 2020). O canal do Rio Poti, de idade cenozoica, drena a Depressão Periférica, escoando em direção ao glint, onde abre uma perceé, virando afluente do Rio Parnaíba, já no Estado do Piauí. Nesse percurso, ele cruza a área urbana de Crateús. O caráter da sua drenagem é do tipo dendrítica. Em Crateús, é constituído de subunidades subdentríticas. Conforme Kellerhals, Igreja e Bray (1976), apresenta formato sinuoso e um padrão irregular em todo o curso principal, sendo caracterizado como rio anastomosado. A composição florística da área de estudo é fundamentalmente inserida nos Domínios das Caatingas. A variação é entre espécies perenifólias e decíduas, ou semidecíduas de porte pequeno a médio. Ocorrem algumas espécies particulares com tamanhos exuberantes, por exemplo: a Oiticica (Licania rigida), o Tamboril (Enterolobium contortisiliquum) e Cajá (Spondias mombin) (AB'SABER, 1974; FERNANDES; QUEIROZ, 2018). De acordo com IBGE (2020), Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE, 2017) e BRASIL (2022), o clima é do tipo Tropical Quente Semiárido Brando e Tropical Quente Semiárido, com quantitativos pluviométricos de 731,2, e temperatura variando de 26° a 28° entre os meses de janeiro a abril. Já os solos são do tipo: Areias Quartzosas Distróficas, Bruno não Cálcico, Planossolo Solódico e Latossolo Vermelho-Amarelo. A Geomorfologia Urbana e a análise-descrição do Uso e Ocupação do Rio Poti A cidade de Crateús evoluiu seguindo a dinâmica do rio, tendo sido este utilizado como marco referencial das divisões de terras no meio rural e no meio urbano. A repentina urbanização do município de Crateús a partir dos anos 1990- 2000, somado com a inexistência de gestão, planejamento e ordenamento territorial adequados, pressionou antropicamente a dinâmica natural do Rio Poti, alterando seu comportamento físico-químico-biológico. Esse estudo centrou-se nas planícies aluvio-fluviais, também conhecidas como planícies de inundação. Trata-se de uma área com altos índices de carga sedimentar, relativamente plana, sob intensos processos intempéricos e físico- químico-biológico, além de erosivos representados por áreas de agradação relativamente planas, e com amplos afloramentos do tipo matacões, que alcançam o leito do rio a partir de movimentos de massa e são transportados por ações mecânicas fluviais. A largura do canal do rio (leito menor) dentro e fora da cidade varia de 40m a 60-70 m, respectivamente. Na área urbana, por vezes o leito mostra-se estrangulado, apresentando largura ainda menor, em função da ocupação por residências ao longo do vale (Figuras 1 e 2). A figura 1 expõe o vale do rio entre os bairros Cidade Nova, Patriarcas e Cajás. Na figura 2, visualiza-se o rio entre os bairros Ipase, Centro, São José e Ponte Preta. Aos poucos, o que era de domínio natural do rio, passou a ser ocupado por casas e construções, mesmo sendo a mesma preservada por lei (trata-se da Lei n. 12.651/2012, que cria as Áreas de Preservação Permanente-APP). Em relação ao uso e ocupação, coloca-se que ao longo do processo de urbanização da planície do rio, a Prefeitura Municipal de Crateús permitiu a instalação de uma série de domicílios e construções comerciais. Muitas edificações, no entanto, ocorreram de forma espontânea, e tais construções não seguem padrões adequados para uma vida digna e qualificada (Figura 3). Essa ocupação, tanto a regular quanto a irregular, e como constatado nos trabalhos de campo, resultou em impactos ambientais tais como contaminação e impermeabilização do solo, poluição das águas e assoreamento do canal principal, como se observa ocorrer em outras planícies fluviais urbanas do Brasil (BAPTISTA; CARDOSO, 2013; GUERRA; CUNHA, 2010; GUERRA; MARÇAL, 2006; GUERRA, 2011; PINÉO; PALHETA, 2021). Outros impactos ambientais são associados com a remoção da mata ciliar, redução da ictiofauna, aves, mamíferos, poluição dos poços d’água, impacto para a pesca artesanal e de subsistência e acúmulo de resíduos sólidos, impondo expressiva pressão sanitária nos residentes próximos a essas áreas, que sofrem com problemas gastrointestinais e renais, entre outros, a exemplo de outras áreas fluviais urbanas do país (BATISTA; CARDOSO, 2013; GUERRA; CUNHA, 2010; GUERRA; MARÇAL, 2006; GUERRA, 2011). Cita-se também a ausência do poder público no controle da qualidade ambiental do recurso hídrico, quando da ocupação urbana histórica do leito do rio (ALMEIDA; CARVALHO, 2009). Com efeito, falta saneamento básico e coleta adequada de lixo, o que causa degradação em todo o curso no âmbito da cidade de Crateús, o que se perpetua em direção à jusante e exutório. Os impactos se ampliam sazonalmente durante a quadra chuvosa, ocorrendo enchentes e inundações em anos de maiores volumes pluviométricos, o que cria problemas para a população ribeirinha, vulnerável, por habitar construções de baixa qualidade, instaladas em contexto de ocupação desordenada. Coloca-se ainda que permanece a construção de domicílios próximo ao curso hídrico com o aval da prefeitura, principalmente nos bairros Patriarcas, Cidade Nova e Ponte Preta, São José e Centro, onde a especulação imobiliária tem concretizado eficientemente seus interesses. São domicílios regulares, que apresentam estilos, tamanhos e materiais de elevado padrão, estando propícios a desastres (ou catástrofes) naturais. Os proprietários, de elevadas condições socioeconômicas, recolhem IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) junto aos órgãos públicos municipais de arrecadação. Nessas áreas, ocorrem outros equipamentos públicos e privados que aumentam o status econômico dos moradores (MELLO, 2008; SOARES; SILVA, 2020).

Canal direito do Poti

Figura 1. Trajeto urbano do rio Poti no bairro Cidade Nova (Ilha) com um total de 2,6 km. Fonte: GOOGLE EARTH, 2022

Canal esquerdo do Poti

Figura 2. Trajeto urbano do rio Poti com um total de 5 km. Fonte: GOOGLE EARTH, 2022.

Edificações (Ir)regulares

Figura 3. Ocupações (ir)regulares na planície fluvial do Rio Poti no espaço urbano de Crateús. Fotos: Autores, 2023

Considerações Finais

As ocupações habitacionais intensificam os processos de degradação e a modificação da morfologia do leito do Rio Poti. A não preservação, conservação e preocupação com o rio resultam em processos não benéficos à sua dinâmica natural. Faz-se necessário a continuidade de pesquisas científicas, visando a implementação de técnicas e tecnologias mais sustentáveis, cujo intuito é a reversão ou a redução dos impactos anteriormente citados, bem como o controle de ações inapropriadas ao rio e a cidade. Tem-se clareza, no entanto, que o cuidado com os geo-ecossistemas hídricos é uma ação política, social, ambiental. O estudo demonstrou o quanto se faz necessário a adoção de medidas práticas e estratégicas para a tentar recuperar a integridade do Rio Poti, importantes e indispensáveis para a edificação de um futuro mais promissor em termos de desenvolvimento sustentável. Pois os rios são corpos dinâmicos, preciosos do ponto de vista natural, e por isso, merecem ser respeitados.

Agradecimentos

Agradecemos a Fundação Cearense de Apoio à Ciência (FUNCAP) e o Programa de Pós- Graduação em Geografia da Universidade Estadual do Vale do Acaraú (PROPGEO/UVA).

Referências

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